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Estados Unidos

A América inacabada

Se alguém estivesse à procura de vestígios de uma “América quebrada mas não inacabada”, não precisou de ir muito longe com a tomada de posse de Joe Biden. Numa capital em estado de sítio, depois do mais simbólico ataque à democracia americana de que há memória, próprio de uma nação inteira em estado de guerra moral, a cerimónia conseguiu disfarçar e apresentar aos seus e ao mundo uma certa normalidade. No entanto, foram apenas os primeiros e pequenos passos de um lento regresso, num imenso país-continente desgastado pela violenta experiência do “nós” e os “outros”.

A bizarra “carnificina americana” que Donald Trump queria extinguir, não era o crime e os gangues e as drogas que roubavam o potencial americano. Era precisamente o que agora testemunhamos: a tragédia de um povo a caminho da auto-destruição política e social, pela falta de consensos ou pela ensurdecedora incapacidade de diálogo. Mas, talvez mais grave ainda, pela crescente hostilização do outro, numa batalha inflamada pelo discurso inflamatório de um Presidente que apenas serviu alguns americanos e levou todos os americanos a novos patamares sombrios de disputa conterrânea.

Num momento em que as palavras contam, Biden serviu todos. Ciente de que a reconciliação é um imperativo, apelou à unidade num discurso celebrado pela normalidade. Porque a maior das coragens também está nessa vontade de uma ordem moral consciente dos seus próprios tempos. Agora, mais do que nunca, a América – e o mundo – precisam de um sinal assim: a normalidade de uma liderança que reúne e não divide. É uma “colina que escalamos” e o progresso só assim pode ser ambicionado.

E, num momento em que as palavras do presente contam e carregam o poder de moldar o futuro, a consagração de Biden terminou por isso com a personificação da ideia de um futuro americano, através da poesia de Amanda Gorman. Mesmo nas mais profundas sombras, “há sempre luz” e o sonho de uma nação melhor é sofrido, sim – mas ainda possível. Assim haja coragem.

Por agora, enquanto ainda paira a sombra de tempos tão divisivos e complexos, depois de anos de mentiras e discórdia, se calhar a América só precisava mesmo de um novo dia a ouvir um simples poema para dar os primeiros passos rumo ao consenso e assim chegar à verdade urgente: a “terra prometida” está ao alcance de quem tiver o sonho de torná-la realidade.

João Póvoa Marinheiro