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A importância de ser Globalista

Quando há um ano sugeri ao João Marinheiro o nome para o podcast tinha bem ciente que não se tratava apenas de um bom nome para ficar no ouvido (até pelo trocadilho com os “Tribalistas”). A discussão sobre Globalistas e Nacionalistas está muito presente no palco internacional, incentivada por nacionalistas e populistas. Trump ao lado de Orbán e muitos outros que se seguem. Os argumentos são sempre os mesmos, os alvos são sempre os mesmos, os resultados é que podem ser diferentes.

Como há muitos que agora se assumem como nacionalistas, também os globalistas devem mostrar porque o são e sem esconder a sua agenda. Macron, Merkel e Obama são acusados de ser globalistas e envolvidos em delirantes teorias de conspiração que alimentam milhões por todo o mundo. São, ou foram, os líderes mundiais que agradam à maioria, mas que servem também de combustível para aqueles que se afirmam contra esse sistema.

Perante a ameaça dos que querem combater essa via, é, mais do que nunca, necessário afirmar posições. Ser globalista é, acima de tudo, olhar para o que nos rodeia, manter a mente desperta, abrir horizontes, encontrar soluções abrangentes, integrar, desenvolver. O novo desafio dos globalistas não é puramente combater o outro lado, mas procurar entender e esclarecer. Mais do que indignar-se com os extremismos e os populismos, é necessário ouvir e responder. Os diagnósticos são conhecidos, mas o modelo é replicado e sempre com o mesmo tipo de ameaças.

O que trazem de novo líderes como Salvini, Bolsonaro, Trump ou Ventura? O desprendimento, o arrojo de propostas milagrosas (tantas vezes enganosas), a luta por uma causa quase sempre nacional e agregadora, o “nós” contra “eles”, o ataque constante ao tal sistema instalado – que não é só político, mas também mediático -, o recurso às verdades alternativas, à demagogia, ao ódio, à divisão, à inflexibilidade, ao egoísmo e tantas vezes ao racismo, à misoginia e à homofobia.

Esse lado ganha espaço, e muitos votos, porque são cada vez mais os que têm medo e se alimentam dessas respostas como bóias de salvação. Seguem os homens providenciais, numa confiança cega em direção ao abismo. Levados por promessas vãs, que só alimentam divisões e desconfianças, tornam as sociedades fechadas, intolerantes e pouco esclarecidas.

É, por isso, importante perceber porque é que essas pessoas têm medo e responder ponto por ponto a cada raiz desse sentimento. Medo de perder o emprego? Medo que os seus costumes sejam ameaçadas? Que a sua vida mude? Sentem-se inseguros, ameaçados por minorias étnicas? São muitas as perguntas, muitas vezes as respostas não são as mais fáceis e as soluções tantas vezes impossíveis. Mas, se a verdade impera sempre, também o esclarecimento tem de prevalecer, evitando cair no mesmo erro do insulto e do desprezo que o outro lado facilmente utiliza.

Os tempos que vivemos atiraram-nos para um território onde as liberdades mais básicas foram ameaçadas, colocadas em pausa para que um vírus deixe de nos ameaçar. Que isso sirva de metáfora para uma reflexão mais profunda sobre o que mais valorizamos como indivíduos e como sociedade. E quando este vírus passar, que estejamos mais preparados para combater outros vírus que só têm como objetivo tornar permanentes soluções que nos parecem por agora apenas passageiras.

Filipe Caetano