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A hora de Mario Draghi?

“Whatever it takes”. Da forma como os tempos se movem, há frases que assumem um tom profético e viram sentenças. Esta, de Mario Draghi, resumia, ainda em 2012, aquela que seria a solução para a maior prova de fogo de toda uma geração: salvar o euro.

E aconteceu.

Há por isso momentos na História em que o ressurgimento de certas figuras parece mais do que óbvio ou inevitável. Este é um deles, depois do Presidente italiano, Sergio Mattarella, ter convocado o ex-Presidente do Banco Central Europeu (BCE), carregando assim no “botão de emergência” de um país, como escreveu o Financial Times.

Com Itália a enfrentar um triplo desafio colossal – a pandemia sem desfecho imediato, a derrocada económica e a incompreensível crise política (mais uma) -, Draghi aparenta ser, agora, a pessoa certa para a hora certa. E para o homem com o sentido de serviço público e rigor que lhe são creditados, assumir as rédeas de uma reconstrução económica com paralelos apenas no pós-guerra depois de já ter salvo o euro batendo o pé à toda-poderosa Alemanha, a empreitada será um tanto ou quanto familiar. O problema é que o caminho adiante já não passa pelas linhas direitas do BCE. Draghi, o tecnocrata, terá de sair da quadratura e abrir caminho no pantanoso sistema político italiano.

Os tempos movem-se de formas que não compreendemos. E eis que o regresso de um economista porventura mais amado fora de casa, assinala também o regresso de Itália ao confronto com o mesmo tipo de viragem que facilitou o equilíbrio de forças atual internamente. O último governo de tecnocratas liderado por Mario Monti foi o fracasso que permitiu a ascensão daquele que é hoje o maior partido italiano, o Movimento 5 Estrelas (M5E), ou ainda a extrema-direita de Matteo Salvini. Assim, apoiar um decisor não-eleito, parece difícil de explicar aos eleitores que votam em formações que contestam o sistema. Como o M5E. E essa discussão está a acontecer.

Apoio para que Draghi forme governo será difícil mas não impossível. A questão são os consensos posteriores para as reformas estruturais que este precisa, ainda para mais com todo o dinheiro da “bazuca europeia” a chegar.

Se ele não conseguir, quem conseguirá? É a dúvida à qual já respondeu um colunista italiano que, por alguma razão, vê em Draghi “a última esperança” de Itália.

João Póvoa Marinheiro