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Estados Unidos Trump

O espetáculo tem de continuar

Tudo na América é mediatizado até ao ínfimo pormenor. O julgamento de Trump, a que assistimos na última semana, é a derradeira prova de uma lógica apenas existente nos Estados Unidos e com evidente interesse a nível global. É por isso que falar no líder da Casa Branca não é um mero pormenor na história. É por isso que a “inocência” de Donald Trump vai muito para além de um singelo pormenor nos livros que forem escritos sobre este tempo.

Partidarismos à parte, ficou mais do que demonstrado que os Estados Unidos da América tiveram um Presidente que incitou o ataque ao Capitólio, com o propósito de impedir a validação dos resultados de uma eleição nacional. Foi uma tentativa de golpe falhada. Um ataque à democracia, aos princípios fundamentais da lei fundamental que agrega o sistema representativo.

O que aconteceu no dia 6 de janeiro de 2021 responsabiliza Donald Trump, mas também o Partido Republicano, que nunca conseguiu travar o ímpeto de um líder certificadamente perigoso, populista, demagogo, capaz de incendiar as mentes de 80 milhões de americanos. Os seus defensores falam de “caça às bruxas”, de “orquestração” dos media tradicionais, de “mentira”, de “conspiração”. O terreno da mentira ultrapassou todas as barreiras, transformando-se em teorias da conspiração que já galgaram o Atlântico e começaram a implantar-se nas mentes de muitos cidadãos das sociedades alegadamente mais avançadas, como a Holanda ou a Alemanha – veja-se o fenómeno Q-Anon.

Falamos muito de “impeachment”, de destituição, de Watergate, do assalto ao Capitólio, e até encomendamos pipocas para assistir às infindáveis horas de transmissão da CNN, mas a realidade dos factos demonstra que esse instrumento nunca teve validação no Senado americano. Nixon abdicou antes de ir a votos para ser destituído e Trump safou-se, apesar de ter sido o que esteve mais perto de ser “impeachado” – mas nem mesmo à segunda no espaço de cerca de um ano.

Importante é saber o que resta da América daqui para a frente. E de Trump. E do Partido Republicano. Três realidades bem distintas, mas que se cruzam, e que irão definir a paisagem política até 2024, altura em que se realizarem as próximas eleições presidenciais. Biden vai tentar “curar” o país; Trump andará por aí; e o GOP, esse, corre o risco de cisão, entre os negacionistas/populistas/extremistas e os conservadores tradicionais. O espetáculo tem de continuar.

Filipe Caetano