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Sarkozy ou o juízo final da direita francesa

“N’attendez pas le jugement dernier. Il a lieu tous les jours.”

Que os poderosos também caem, já tinha profetizado Albert Camus em A Queda, por entre os muitos desabafos dramáticos de um respeitado advogado caído em desgraça – e apostado em julgar toda a humanidade pela injustiça que se abateu na sua própria vida.

Na cíclica narrativa do tempo, as lamentações repetem-se. Bem como a queda dos poderosos. Condenado por corrupção, o antigo Presidente francês, Nicolas Sarkozy, lamentou uma “profunda injustiça” e mostrou-se, também ele, apostado em ir contra o seu próprio país para aquilo que, alega, será a reposição da verdade. Custe o que custar.

E os custos da decisão que derrubou um Presidente são igualmente políticos. Sobretudo para a direita moderada representada nos Les Républicains (LR), que via em Sarkozy o nome certo para as próximas presidenciais, já no próximo ano. A frustração foi tanta que o número 2 do partido viu politizações na investigação. Não é surpresa: a justiça tornou-se num papão para a direita, devido ao que aconteceu nas últimas eleições, quando foi aberto um processo a François Fillon, então candidato dos LR, afastado na primeira volta. Fillon seria depois condenado, também ele.

Na cíclica narrativa do tempo, as tendências repetem-se. A queda de Sarkozy alimenta as mesmas ondas de choque que assistimos na última corrida ao Eliseu e que, provavelmente, voltarão a acontecer: o desaparecimento das forças políticas tradicionais no duelo final. Não é só a direita, manchada pela justiça, que teme ficar arredada da segunda volta. É também a esquerda, sem nomes na contenda que tenham projeção nacional.

França deve assim preparar-se para a reedição do confronto entre Emmanuel Macron e Marine Le Pen – como se a extrema-direita fosse um padrão de normalidade da vida política no país, depois de engolir, juntamente com o liberalismo do atual Presidente, socialistas e conservadores.

Com os moderados encostados, o problema aqui é que Macron poderá já não servir como tábua de salvação para quem não se revê nos extremismos. O que significa que a próxima batalha será ainda mais justa. Da esquerda à direita, são muitos os insatisfeitos com a atual presidência – e nada garante que voltem a repetir o voto útil como cordão de segurança para travar Le Pen.

Na cíclica narrativa do tempo, a queda de uns é a ascensão de outros.

João Póvoa Marinheiro