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Jerusalém

Velhas feridas, novas tensões. Mas a escalada de violência em Jerusalém traz proporções que anunciam os confrontos mais sérios entre vizinhos eternamente rivais.

Os bastidores do vazio de liderança de um lado e do outro aumentam a imprevisibilidade do desfecho. Entre os palestinianos, surge uma contestação dissociada das decisões centralizadas a partir de Gaza. Aliás, tanto a desconvocatória de eleições locais, como o disparo de rockets contra Jerusalém – investida inédita em anos -, mostram um Hamas com sérias dificuldades em tomar as rédeas das insatisfações. À procura de algum tipo de controlo.

Do lado israelita, a resposta musculada com mísseis disparados rumo a Gaza, provocando dezenas de mortes, incluindo crianças, augura aquilo que pode ser a próxima cartada de Benjamin Netanyahu, na incessante tentativa de se eternizar no poder, depois das negociações para um futuro governo terem sido depositadas nas mãos do candidato da oposição. Netanyahu, acossado pelo descrédito político e acossado na justiça, vivendo aparentemente os dias do fim como Primeiro-ministro até a tensão estalar, terá na força da resposta militar uma nova sobrevivência, agradando às hostes mais conservadoras e intervencionistas que entenderão não ser este o momento para trocar de líder. A confirmar-se a manutenção ao preço da lei da bala, Israel mantém-se também no bloqueio político que divide o país, de eleição em eleição. Quatro eleições nos últimos dois anos.

E para o mundo que assiste lá fora, a violência em Jerusalém é ainda um teste à liderança de Joe Biden. A pressão aumenta sobre uma Administração que publicamente tem reafirmado a defesa dos direitos humanos como o pilar da sua política externa e que, desde o primeiro dia, proclama incansavelmente o regresso da América aos grandes palcos mundiais. Para lá de comunicados cansados, genericamente evasivos, este seria o momento de provar que as palavras têm valor e que há compromisso com a defesa desses ideais. Mais concretamente, a condenação do despejo de famílias palestinianas em Jerusalém Oriental e nos territórios ocupados pelos colonatos na Cisjordânia.

Se a paz se impuser, como se deve impôr, que seja o momento para ser acompanhada de uma visão de futuro capaz de resolver decisivamente o eterno e doloroso conflito israelo-palestiniano. O mundo assistir lá fora a velhas feridas abertas por novas tensões, como uma repetição de todos os tempos, é um tremendo fracasso civilizacional.

João Póvoa Marinheiro